[UFPR] Poema "Sequestrado" de Sapa'u Ruperake Petaia

A Redenção de Cam, Modesto Brocos, 1895. Óleo sobre tela, 199 centímetro x 166 centímetro. O quadro de Modesto Brocos é escolhido pelo médico e antropólogo eugenista brasileiro João Batista de Lacerda, para ilustrar seu artigo Sobre os mestiços no Brasil, que cuja tese central era da benécia do embraquecimento do negro brasileiro. Saiba mais.

Olá pessoal, compartilho por extenso a poesia Sequestrado de Sapa'u Ruperake Petaia, traduzida, creio eu, pela própria Sueli Carneiro, que a apresenta ao final do subcapítulo Aporias do intelectual negro: Sequestros e resgates do capítulo Epistemicídio, que se encontra no livro que será cobrado no vestibular da UFPR 2026/2027.

Sueli Carneiro assim descreve a força da poesia de Sapa'u Ruperake Petaia: "O poema singular que apresentamos ao término deste capítulo descreverá com precisão o processo de 'branqueamento' do colonizado por um sistema colonial de educação. Mesmo quando o negro alcança o domínio dos paradigmas da razão ocidental, ele está sujeito ao epistemicídio pela afirmação da incapacidade cognitiva inata dos negros, pela ausência de alternativa a esse campo epistemológico hegemônico, pela aculturação promovida pelos paradigmas da razão hegemônica e pela destituição de outras formas de conhecimento". 


Eu tinha seis anos
quando mamãe impensadamente
me mandou para a escola sozinho
cinco dias por semana 
Um dia
fui sequestrado por um bando
de filósofos ocidentais
armados de livros coloridos
e de altas reputações e títulos universitários
Fiquei detido numa sala de aula
vigiado por Churchill e Garibaldi
numa parede
Hitler e Mao tiranizando
De outra
Guevara incutindo em mim a ideia de uma revolução
de dentro de seu Manual de Guerrilha


De três em três meses eles enviavam ameaças
a mamãe e o papai

Mamãe e papai gostavam do filho
e pagavam o resgate
em forma de mensalidade

A cada trimestre mamãe e papai
ficavam mais pobres
e meus sequestradores ficavam mais ricos
E eu ficava cada vez mais branco

Quando me soltaram
quinze anos depois
deram-me (entre aplausos de meus companheiros de
infortúnio)
um papel
para enfeitar minha parede
atestando minha libertação

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